homemquintafeira

Blogue da autoria de Manuel Leite da Costa

Friday, January 19, 2007


- Será que não compete ao Estado zelar pela resolução dos problemas em vez de os tornar na solução? Se há corrupção, homicídios, pedofilia, excesso de velocidade nas auto-estradas. Qual o papel do Estado? Tornar a sua existência na solução?

- Será que a solução do problema de um ser humano pode passar pela morte de outro, ainda por cima mais frágil? Estamos no grau zero da civilização? O que virá a seguir? A eliminação de toda e qualquer erva daninha da sociedade do bem-estar? A morte de idosos, doentes graves e pessoas com deficiência?

- Não compete ao Estado promover uma cultura de vida, incentivando a maternidade? Ou será que o mesmo Estado que se preocupa com a preservação das espécies animais e com o meio ambiente, apenas está disposto a deixar nascer aqueles que poderão ter “qualidade de vida”?

- Deverá o Estado pagar abortos e ainda por cima duplamente (comparticipando e permitindo a dedução de 30% em sede de IRS)? Quem analisa o trade-off entre estas intervenções e as enormes listas de espera? Quem faz a mesma análise custo/benefício em relação às intervenções cirúrgicas que não são comparticipadas?

- Não deveria o Estado pagar mais pelo nascimento de um filho adicional do que pela instalação de equipamentos de energia renovável (via IRS) ou do que pelo abate de uma oliveira ( via políticas comunitárias)?

- E já agora quem ganharia com a liberalização do aborto a pedido? Quem tem interesses económicos neste nicho? Haveria mercado para quantas clínicas de aborto?

- Qual o papel do Estado na protecção da mulher perante uma lei que a desprotege e a entrega a ela própria, desresponsabilizando o marido e tornando-a permeável ao mercado? E se o pai se opusesse ao aborto? E se a entidade patronal resolvesse despedir uma mulher por ter tido uma criança, num cenário de aborto legal?

- O que nos garantiria que ao contrário do que se passou nos outros países, o aborto iria diminuir em Portugal num cenário de legalização?

- Como seria feita a demonstração da gravidez pré 10 semanas? Por ecografia provavelmente…até já se ouve o bater do coração...

Thursday, January 11, 2007

Ainda há pastores ?



"Ainda há Pastores? "(2006) realizado por Jorge Pelicano (29 anos) e escrito por Cátia Vicente, João Morais e Jorge Pelicano é um documentário de 80 minutos sobre o Portugal que está a desaparecer. Um país de pessoas genuínas e simples. Pessoas que levam uma vida sofrida e marcada pela extrema solidão em Casais de Folgosinho, um vale perdido e abandonado na Serra da Estrela. A tudo resistem. À falta de luz, de água canalizada, de estradas dignas desse nome, aos Invernos rigorosos, à música pimba e até a um realizador em busca de material para a sua primeira obra.

Casais de Folgosinho foi um autêntico santuário de pastores, a meca da Estrela em cabeças de gado. Hoje, como em muito interior deste país, apenas resistem os mais velhos. Já ninguém quer ser pastor. Ou melhor, Hermínio (27 anos) tenta resistir à tentação do mundo com folgas ao Domingo e lá vai guardando o seu rebanho ao som de Quim Barreiros ( ídolo que acaba por conhecer durante o filme e de quem até recebe um telemóvel em pleno concerto, a lembrar o "Tou Xim" dos primórdios da Telecel).

Na 12ª edição do Cine`Eco – Festival de cinema e vídeo de ambiente da Serra da Estrela -recebeu o Prémio Lusofonia para melhor obra a concurso produzida e realizada em país lusófono e a menção honrosa atribuída pelo Júri da Juventude. A SIC Notícias promoveu em época Natalícia...as salas de cinema têm enchido.

http://aindahapastores.blogspot.com/

Thursday, January 04, 2007

La Mafia


Lembro-me bem. Cheirava intensamente a maresia e estava já uma senhora noite. O ano aproximava-se do fim com a suavidade da chuva miudinha que caía. Não tínhamos guarda-chuva, mas pouco importava com a fome com que estávamos (duvido mesmo que tivesse almoçado nesse dia). Entramos em passo seguro e confiante ao que íamos. A rosa vermelha no vidro indicava que estávamos no local do crime.

Atirámo-nos de entusiasmo aos ovos à Palermo. Estrelados, com rodelas de cebola levemente panadas, batatas fritas e bacon. Num dos plasmas da sala, o documentário " Ainda há pastores?" deixava a empregada brasileira de boca aberta perante a subida ao palco e o caloroso cumprimento ao cantor pimba manhoso de bigode feito pelo guardador de rebanhos. Arrumámos os ovos no estômago e seguimos para as massas e os respectivos molhos, de entre as cerca de 300 combinações possíveis. A imaginação como limite sugeria as mais estrambólicas misturas. Parece que tudo o que leva Vodka é especialidade da casa e vende muito bem, mas preferimos massas com queijo e noz e verdes. Molhos clássicos com música italiana em fundo.

Um grupo de clientes espreita de soslaio pela porta da entrada. A sala de refeições é tudo menos convencional. Espantam-se com as toalhas aos quadradinhos vermelhos e brancos, verdadeiros pedaços de pano versão Boavista da Sicília. Os nomes e as fotografias de mafiosos famosos espalhadas pelas paredes, as rosas vermelhas, as garrafas de vinho italiano, os cheiro a tomate e queijo. Será que a Máfia janta mesmo aqui?

Uma família senta-se na mesa ao lado. Casal novo, na casa dos trinta. Uma criança pequena e os respectivos avós. Sotaque forte à Porto. Estranheza quanto à escolha do local para jantar nessa noite. Pergunta o Avô : " Como é que viemos aqui parar? Quem nos recomendou este sítio?", resposta à plano tecnológico: - " Foi aquele aparelho GPS que me deu no Natal!". Sorriso cúmplice. A Máfia tradicional evoluiu para novas realidades.

A casa enche e nós chegamos à sobremesa. O pastel siciliano teve o trago amargo de quem esperava mais, obviamente para não ficar com boca de lacaio, sem no entanto estragar a noite. A saída discreta fez-se pela porta da frente. A conta foi paga. Levava a minha malinha preta.

La Mafia - Matosinhos -R. Brito Capelo, 1133 - Tel. 229 378 896